
Um dia estava eu na praia. O Toni veio-me visitar, mais ninguém o pôde acompanhar. Estava eu com ele a jogar futebol, a bola batia no meu pé mas eu é que era projectado para as minhas angústias, para os meus pensamentos arrastados sem rumo, até que recebo uma mensagem no telemóvel, era a Catarina. A mensagem dizia que ela estava em Mindelo e que vinha ter connosco, dizia muito mais que só depois consegui ler... Aparece ela no horizonte mas vinha acompanhada dele, quanto mais se aproximava mais se aproximava o Horizonte, o meu olhar não conseguia atingir mais que aquele Horizonte, o meu olhar dizia ao meu corpo que finalmente iria tocar esse misterioso Horizonte que sempre observei de longe. A Catarina chega ao pé de nós e diz:
- Olá!
- Olá!- disse eu abraçando-a.- Estás por aqui?
- Não, estou por ali! Claro!- sorriu- Esta é a Júlia.
Não compreendi o seu nome, para mim ela era o Horizonte, não tinha esse outro nome que tentava esconder o que ela trazia até mim.
A partir daí as palavras não foram mais que ruído, os meus olhos não conseguiam ouvir nada, os meus sentidos estavam apenas despertos para aquele Horizonte, aquele Horizonte que se escondia atrás do nome Júlia. Palavras sem sentido fui proferindo, apenas para tentar captar a sua atenção, apenas para conseguir tocar-lhe nem que somente com palavras. Quando os meus sentidos acalmaram pude-me aperceber que já conhecia a Júlia. Já a tinha visto pois ela costuma ir para ali de férias todos os anos. Há quatro anos atrás tinha-a conhecido, depois penso não mais a ter visto. A sua idade no entanto tinha escondido o que ela se revelar-se-ia ser, era cinco anos mais nova do que eu, ela tinha apenas 14 anos nesse nosso primeiro encontro. Agora tinha a idade do sonho, a juventude da paixão e a forma do horizonte. Assim se passou esse dia, nessa noite no entanto saí com ela e com a Catarina. A noite revelava os seus olhos escuros, neles me desorientava ou talvez encontrasse o meu caminho. Vestia uma saia azul comprida, saia que ficou marca dessa primeira noite, desse primeiro tão desejado fôlego. O seu cabelo escuro ondulava sobre a sua face morena. Essa face respirava em mim uma beleza inesperada, uma beleza tão esperada... Bebia cada palavra acalmando uma vida sedenta e saboreava cada som como se do mais belo poema se tratasse, um poema que me prendia apenas pelo seu som, o conteúdo ainda estava eu longe de descortinar. Levei-as a casa a pé, não consegui arranjar carro. Cada passo que dava parecia realmente avançar... estaria eu sentado com a música parada? Estaria ali um queijo? Seria o queijo final? Vim-me embora, sabia que algo tinha começado e sentia que o devia agarrar.





